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Todo mundo sabe que a idolatria é pecado, mas por muito tempo eu idolatrei a Bíblia. Não tinha consciência disso, mas idolatrei. Hoje sei que muita gente incorre no mesmo erro e é bom a gente parar pra analisar o que esse tipo de atitude tem trazido para o meio cristão.

 Nós aprendemos desde cedo que a Bíblia é a palavra de Deus e que foi escrita por homens inspirados por Ele. Esse ensinamento elementar nos leva à perigosa crença de que tudo que está escrito nela é inquestionável, infalível e que foi o próprio Deus quem escolheu cada palavra ali. Mas não é bem assim. A Bíblia é formada por diversos livros escritos em épocas diferentes, por pessoas diferentes, com intenções diferentes. Nós, cristãos, cremos que foram, sim, homens inspirados por Deus, mas não podemos perder de vista que isso não tira deles a subjetividade e o contexto da época em que viveram. Ninguém fala fora do seu contexto e ninguém consegue ser imparcial em seu discurso.

A Bíblia foi escrita por homens numa época em que o machismo predominava com muito mais força. Não por acaso a figura feminina nas escrituras é bastante secundarizada. As mulheres quase não aparecem como protagonistas, sua atuação é omitida ou minimizada em muitos casos e as histórias que ganham mais notoriedade são as que elas aparecem como figuras manipuladoras e vaidosas, como Jezabel, Herodias, Dalila, a esposa de Jó….  Alguns escritores da Bíblia também era privilegiados socialmente (Davi era rei, Moisés foi criado com todas as regalias da família do Faraó, Lucas era médico e considerado muito culto, Jó era um homem rico….). A visão de pessoas privilegiadas difere muito da visão dos menos favorecidos e isso também implica num recorte de discurso. Além do mais, o judaísmo tem uma influência muito forte nos livros da Bíblia (tudo indica que o único autor conhecido que não era judeu era Lucas) e é claro que isso também já traz um outro recorte que explica muitos discursos e orientações ali contidos. Não se pode, de forma alguma, descolar a Bíblia do seu contexto e da subjetividade das pessoas que a escreveram.

Por outro lado, se não foi o próprio Deus quem pegou lápis e papel para escrever a Bíblia, então dizer que ela É a palavra de Deus é, no mínimo, precipitado. Acredito ser mais prudente e mais realista dizer que ela CONTÉM a palavra de Deus, já que ali estão relatos de pessoas que, literalmente, ouviram a voz dEle e de pessoas que estiveram com Jesus, acompanhando seus passos e testemunhando seus feitos. No entanto, a Bíblia contém não somente isso, mas também testemunhos de vida (como o livro de Rute), descrições dos costumes de uma época (como Levítico), louvores e adorações (Salmos) e até mesmo histórias cujo teor ainda não se sabe se é totalmente verdadeiro ou se consiste numa lenda ou metáfora para nos falar de fé (como a história de Jó, de Adão e Eva, de Sansão…). Portanto, a Bíblia não é um livro homogêneo e nem sempre suas narrativas podem ser interpretadas literalmente. É um livro que nos inspira, sem dúvida, e que nos ajuda na nossa caminhada cristã, mas não pode ser utilizada como um manual que deve ser seguido em sua totalidade e interpretado de forma literal por um simples motivo: é impossível fazer isso.

A partir dessa breve explicação, acho que fica claro que não dá pra gente considerar a Bíblia como um livro atemporal. Muitas coisas que ela traz como regras religiosas eram costumes de sua época, crenças que já foram superadas, superstições… querer aplicar tudo isso nos dias de hoje é o que os historiadores chamam de anacronismo. Não podemos lidar com a Bíblia como se ela fosse um segundo Deus. Não podemos partir do princípio de que “se está na Bíblia, temos que fazer”. (Você conhece alguém que obedece a todas as leis de Levítico? Já reparou que várias delas são simplesmente desconsideradas nos dias de hoje?) Aquela história de que “eu só acredito no que está na Bíblia” é bem perigosa, pois muitas coisas não estão na Bíblia e, de fato, aconteceram. Já outras estão contadas ali e não foram comprovadas ainda. Temos que ter bom senso e perceber que muitas vezes a obsessão da igreja pela Bíblia é pura idolatria. E essa idolatria serve para quê? Geralmente, para manipular e controlar as minorias, o diferente, o outro.

É a idolatria da Bíblia que faz com que homens preguem para mulheres como se elas vivessem ainda nos tempos do antigo testamento; que nos aprisiona às leis e nos faz esquecer que vivemos sob a graça de Deus, pois não há nada que possamos fazer para sermos menos pecadores; é a idolatria da Bíblia que promove o ódio, o fundamentalismo, a intolerância e o desrespeito (gays, mulheres e seguidores do candomblé que o digam); que nos transforma em vigilantes do outro, apontadores dos erros alheios. A idolatria da Bíblia nos cega, nos faz acreditar que somos mais “santos” que os outros, nos deixa alienados e nos afasta do verdadeiro Evangelho. Tudo isso porque damos mais importância a ela do que a Deus, valorizamos mais os ensinamentos datados que ela traz do que os princípios imutáveis que Jesus nos ensinou.

Certa vez ouvi uma pastora dizer que temos que ler a Bíblia fazendo o seguinte questionamento: isso que está dito aqui gera vida? Gera dignidade? Gera respeito? Gera amor? Se sim, então vamos praticar. Se a resposta for negativa para alguma dessas perguntas, é sinal de que não é um princípio imutável. A orientação dessa pastora lembra o que Paulo disse na carta aos Filipenses: “tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai.” (Fp 4:8). É um bom exercício para praticarmos, não? Então, a partir de hoje, vamos tirar a Bíblia do altar? Lá só cabe um Deus.




3 Comentários

  1. Curso Online disse:

    Sou a Marina Almeida, gostei muito do seu artigo tem
    muito conteúdo de valor parabéns nota 10 gostei muito.

  2. Sandra disse:

    Excelente! Sou pastora e percebo essa idolatria à bíblia , isso é prejudicial para saúde cristã. Jesus acima da Bíblia sempre.

  3. Willian disse:

    Concordei em cada palavra dita aqui parabéns.

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