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Vamos falar de menstruação?

Falar de menstruação ainda é um grande tabu. Numa sociedade que explora o corpo nu da mulher, que erotiza crianças, que vê cadáveres em pleno horário de almoço, que adere ao voyeurismo dos realities shows… falar de menstruação é impróprio, nojento, vulgar. Como pode?

Aprendemos desde cedo que esse é um assunto ultra-secreto. Não devemos contar a ninguém quando menstruamos pela primeira vez, principalmente aos homens. Todo os meses aprendemos a nos desdobrar para que não percebam que estamos menstruadas: é a preocupação com o absorvente marcando, com os vazamentos, com os vestígios de sangue que possam ficar no sanitário, com a calcinha manchada no varal… E é um tal de comprar absorvente escondido, esconder absorvente no guarda-roupa (num local que ninguém mexa), sussurrar ao pedí-lo a uma amiga… todo um traquejo social para que a nossa menstruação não apareça – como se ninguém soubesse que ela existe.

Depois de uma vida inteira escondendo meu período menstrual todo mês, comecei a me perguntar porque tanto melindre quando se fala em menstruação, até mesmo entre nós, mulheres. Quando decidi trocar o absorvente pelo coletor menstrual, ouvi vários comentários enojados de amigas e mulheres da família. Mas temos nojo de quê mesmo? Do nosso próprio sangue? Será que quando nos cortamos ou nos ferimos sentimos esse mesmo nojo? Ou será que o sangue menstrual é mais nojento pelo simples fato de sair pela vagina? Não há fundamento racional por trás desse tipo de reação.

Engraçado que os homens não têm nojo dos seus fluidos corporais. Homens não têm nojo do próprio esperma. E o mais engraçado é que muitas mulheres também não. Mas da própria menstruação, sim! Engraçado ou estranho?


Mito


A intimidade feminina é extremamente mitificada sem uma razão aparente. Sexualidade da mulher? É vulgar falar disso, principalmente se ela for mãe ou idosa. Menstruação? É nojento, cada uma guarde seus assuntos pra si. Mas essa mitificação não é em vão: o machismo busca nos alienar dos nossos próprios corpos, para que enxerguemos a nós mesmas com indiferença, nojo ou menosprezo. É a famosa alteridade de Simone de Beauvoir – nos enxergamos como se estivéssemos fora de nós, não vestimos nossos corpos. Por não termos intimidade conosco, não nos conhecemos bem e ficamos à mercê dos homens, principalmente em termos sexuais. E como eu já falei aqui, a dominação sexual é o grande interesse do patriarcado. E aí expressões como “te fazer mulher” começam a fazer todo sentido: os homens querem ser os responsáveis pelas nossas descobertas sexuais, eles precisam se auto afirmar mostrando pra gente que entendem mais de nós do que nós mesmas. Segundo a mentalidade machista e patriarcal, as mulheres precisam ser guiadas em tudo, até no autoconhecimento do corpo. Mas é claro que isso não é verdade! Nenhum homem tem o poder de nos fazer mulheres, pois nós já somos mulheres!

É simplesmente porque se trata da sexualidade da mulher que a menstruação é um tema tabu. Tudo que diz respeito a esse assunto está envolto num manto de mistério e pecado porque é conveniente para o patriarcado que seja assim: nós estranhas de nós mesmas.

Mas a menstruação nada mais é do que o nosso corpo nos lembrando mensalmente que temos o poder de gerar uma vida. Não tem nada de nojento nisso! O sangue menstrual é limpo, rico em nutrientes e, ao contrário do que se pensa, ele não tem odor – é o contato com o oxigênio e com o absorvente que modifica o seu cheiro. Não há motivo pra sentir nojo ou vergonha, foi Deus quem nos fez assim e por um motivo bem especial!


Realidade


É claro que não dá pra negar que o ciclo menstrual tem lá seus incômodos: dores, cansaço, irritabilidade, inchaço e espinhas são apenas alguns sintomas que muitas vezes nos tiram o bom humor, mas quando conhecemos o nosso próprio corpo também podemos amenizá-los. Uma alimentação balanceada e bastante água costumam fazer milagres, mas em alguns casos é necessária a intervenção médica. Por isso, o primeiro passo é observar e anotar todos os seus sintomas, observar seus hábitos e fazer uma auto análise. Depois você pode buscar ajuda de especialistas (como ginecologistas e nutricionistas) para saber como lidar melhor com o seu ciclo e amenizar alguns incômodos. Compartilhar experiências com outras mulheres é bastante válido! E conversar com o marido sobre o assunto também, óbvio! Os homens em geral têm dificuldade de entender nossas oscilações de humor e as mudanças que acontecem em nosso corpo durante o mês, por isso trocar ideias com eles pode ser enriquecedor e saudável pro casal.

Encarar a menstruação como ela é, sem romantizar, mas também sem demonizar ou se envergonhar, é um grande passo para “fazermos as pazes” com o nosso corpo, aprendermos a lidar com ele e conseguir, assim, ter mais qualidade de vida. E não podemos esquecer: menstruar é normal, não há nada de sujo, vergonhoso ou errado nisso!




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