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Escrevo esse texto com todo cuidado e sem a pretensão de falar em nome das pessoas negras, pois sei que elas têm seus representantes legítimos. Pensei mil vezes antes de escrever sobre esse tema, afinal, sou branca e não tenho autoridade para isso. No entanto, sei que tenho muitas leitoras negras e não posso me omitir diante de uma data tão importante.

Quero tratar de racismo sob uma perspectiva branca. Nunca sofri com isso, não sei o quanto dói e não posso falar do que não vivo, mas posso falar do que vejo e ouço, que pode ser resumido em: diversas formas cruéis e desprezíveis de discriminação.



O que eu vejo e ouço


Ouço grupinhos de brancos fazendo comentários no estilo William Waack em tom de segredo, como se fossem verdades que tivesse que ficar apenas entre eles. E quando pergunto se são racistas, a resposta é imediata: não!

Vejo piadinhas racistas serem compartilhadas em grupos de whatsapp e receberem os aplausos e risos das pessoas (porque são só “brincadeiras”, né?). Vejo pessoas brancas se desentendendo com pessoas negras pelos mais diversos motivos e atacando a sua cor pelas costas, como se isso tivesse alguma interferência no desentendimento. Vejo policiais fazendo abordagem em ponto de ônibus e só revistarem os homens negros. Vejo pessoas negras serem consideradas carentes e necessitadas mesmo quando não são, apenas por causa da cor da sua pele. Ouço brancos comentando sobre como o mundo está chato, pois hoje tudo é racismo e as pessoas não sabem mais brincar. Ouço negros conscientes e politizados serem taxados de arrogantes e complexados por não apresentarem o comportamento subserviente que se espera deles.

E quando se trata de mulher negra? Ouço os mais indecentes comentários sobre os seus corpos, como se fossem apenas um pedaço de carne que serve para dar prazer aos homens. Vejo profissionais competentes terem sua capacidade posta em dúvida por causa da sua cor. Ouço comentários racistas sobre cabelos e cheguei a ver uma mulher negra trançar, desfazer as tranças e alisar seu cabelo em três dias porque sua chefe a proibiu de trabalhar com o cabelo trançado. Vejo mulheres negras sendo sempre “amigas”, pois os homens não as querem como companheiras – no máximo, se divertem com elas. E ouço esses mesmos homens dizerem que não é racismo, é apenas porque elas “não fazem seu tipo”.

Vou parar por aqui porque vejo e ouço tantas coisas que poderia passar dias escrevendo. E tudo isso em Salvador, a cidade mais negra fora da África!


Como mudar isso?


Diante de todas essas experiências que relatei aqui e que se repetem diariamente pra mim, eu não tenho como negar o racismo. Não tenho como afirmar que o preconceito é puramente social nem que os negros são vitimistas simplesmente porque, embora não sinta na pele, EU VEJO O RACISMO. E todos os brancos também veem, só que muitos se recusam a admitir.

Para acabar com esse câncer em nossa sociedade, os brancos têm que entrar no debate. A discussão sobre racismo não deve ficar restrita aos negros, pois nós somos a parte mais problemática da história: somos os vilões, aqueles que discriminam. Eu sei que quase ninguém se vê nesse lugar, mas ele é nosso, sim. Então nós temos que sentar na roda e ouvir. Aprender com eles o que não se pode fazer, o que ofende, o que inferioriza, o que estigmatiza. Aprender a lidar com eles de igual pra igual, porque é assim que nós somos. E nos permitir uma transformação de mente.

Se somos cristãos, a nossa responsabilidade aumenta ainda mais, pois temos um Deus que não faz acepção de pessoas e que nos convida o tempo todo a amar o próximo. Por tudo que Jesus ensinou, definitivamente, não tem como conciliar o cristianismo com qualquer forma de racismo. E discutir isso nas igrejas é fundamental, pois apesar da fraternidade ser um dos nossos pilares, ela ainda não é aplicada tão perfeitamente quanto se quer fazer parecer. Somos cristãos, mas ainda somos racistas e temos obrigação de combater isso em nós mesmos.

Entendo que fomos criados numa sociedade preconceituosa e aprendemos os fundamentos do racismo desde criança. Por isso, muitas vezes é difícil enxergá-lo em atitudes que para nós parecem tão “banais”. Mas aqui vão três desafios que eu adotei pra mim e que podem nos ajudar a reverter esse quadro: 1) ESCUTAR: nunca duvide ou menospreze quando uma pessoa negra aponta ou se queixa de um ato de racismo. Ela sabe do que tá falando e nós nunca poderemos ter essa percepção simplesmente porque não somos negros e não somos vítimas. Ouvir o que essas pessoas têm a dizer é muito importante para aprendermos com elas a detectar o racismo e, assim, evitar reproduzir atos racistas. 2) FAZER AUTOANÁLISE: todos nós somos racistas, em menor ou maior grau. Admitir isso é o primeiro passo para a mudança e fazer o exercício de autoanálise, detectando onde estão os nossos racismos diários, ajuda muito a combatê-los. 3) NEGAR PRIVILÉGIOS: a partir do momento em que a gente escuta e faz autoanálise, a gente passa a conhecer os nossos privilégios. E aí vem a parte mais difícil: negá-los. Como se nega privilégios? Trabalhando para que eles não mais existam. Numa perspectiva individual, negar privilégios é recusar-se a ser beneficiado(a) por causa do racismo e denunciar. Numa perspectiva social, negar é carregar essa bandeira junto com negros e negras, admitindo que esse não é um problema deles, mas principalmente nosso. Só assim o racismo vai ter um fim.




1 Comentário

  1. Lilian Alves disse:

    Isabela, obrigada! Sem dúvida, reconhecer q o racismo existe o tanto de estrago q ele provoca na vida dos não-brancos é crucial para o combate dessa opressão.

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