A velha história da “mulher pra casar”
17 de junho de 2017
11 privações que o machismo me impôs
10 de julho de 2017

Num mundo onde a fé se tornou mais um item à venda nas prateleiras do consumo, onde as pessoas buscam respostas rápidas e reconfortantes para seus problemas, encontramos facilmente dois tipos de barateamento do Evangelho: o “Evangelho enlatado” e o Evangelho do self-service.

O “Evangelho enlatado” consiste num pacote que, aparentemente, dá conta de todas as nossas necessidades espirituais e, ao mesmo tempo, faz com que acreditemos (erroneamente) que estamos nos dedicando a uma experiência de fé, que estamos renunciando e vivendo seus resultados, quando na verdade estamos apenas vivendo emoções momentâneas e sem compromisso real com Deus. Esse pacote costuma conter fórmulas prontas e seus respectivos resultados milagrosos, com uma dose de religiosidade vazia para incrementar e dar aparência de santidade. Para muitas igrejas, vender um “Evangelho enlatado” é altamente lucrativo (em vários sentidos), pois é fácil, atrai pessoas, satisfaz seus anseios, e ainda as mantém dependentes e necessitadas de gurus espirituais que só essas igrejas têm para oferecer. No entanto, esse tipo de Evangelho é muito raso e muito pobre e promove uma verdadeira idolatria do “eu”.

O segundo tipo de barateamento do Evangelho, que também costumamos ver com muita frequência, é aquele do self-service: olhe, escolha e leve o que você mais gosta, o que mais lhe convém. Aqui é possível conciliar absolutamente tudo com a vida cristã: corrupção e outras práticas condenáveis, desvio de caráter, amor ao dinheiro, promiscuidade… muitos políticos, artistas e até mesmo criminosos são adeptos dele. Mas não se engane: tem muita gente comum que também o segue, gente como eu e como você. Todos encontram nessas igrejas apoio espiritual para continuar com suas práticas pecaminosas, muitas vezes até em troca de um vultuoso dízimo. E, mais uma vez, o “eu” se sobressai e faz o Evangelho dançar conforme a nossa música (nossos interesses, nossa vida, nossas escolhas…).

Só que o verdadeiro Evangelho é completamente diferente de tudo isso e implica em renúncias, diminuição do ego, serviço. Porém, o que mais se vê nessas igrejas de enlatados e self-services é o contrário: não há renúncia, tudo é conciliável; o “eu” está em primeiro lugar e o serviço é prestado por ninguém menos do que Deus, pois é Ele quem tem que “restituir”, nos fazer prosperar, ouvir nossas orações e dar respostas que coincidam com as nossas vontades. Vejo muitos pregadores falando de Deus como se Ele fosse nosso empregado e (pasmem!) tem até pastor que dá ordens a Deus! Vivemos uma inversão de valores na qual nós somos a divindade e a divindade é nosso servo. E o pior é que não percebemos, pois somos tão egocêntricos que naturalizamos o fato de acharmos que tudo tem que girar ao nosso redor.

Um cristianismo que só serve para atender às nossas necessidades não é cristianismo. Jesus deu todas as provas de que o Evangelho não é sobre o “eu”, mas sim sobre o outro. Deus tem que estar presente em nossas vidas de tal forma que nos leve a pensar sempre no outro em primeiro lugar, nunca em nós. Jesus ensinou que amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo é o resumo de toda a lei (Mt. 22:37-40). João também reafirmou a ideia de que o amor é a chave do Evangelho ao dizer que “quem não ama a seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê” (1 Jo 4:20), sinalizando que amar a Deus implica em amar o próximo. Mas quem é o próximo? É o meu amigo, o meu irmão, aquela pessoa com quem eu me dou bem…? Não. Em Lc 10:29-37, Jesus ensina que o próximo é aquele que nos é estranho, aquele a quem rejeitamos ou desprezamos. Em sua parábola, Jesus traz um samaritano ajudando um judeu numa época em que eles se odiavam. Fazendo uma analogia e trazendo para os dias de hoje, podemos dizer que o nosso próximo são os pobres, os negros, os índios, as mulheres, os homossexuais, enfim, todas as minorias, consideradas inferiores em nossa sociedade, cuja dignidade e valor Jesus veio resgatar. Portanto, ser cristão é algo mais profundo do que essas igrejas fazem parecer, pois nos leva a sair da nossa zona de conforto, quebrar preconceitos e subverter a ordem do mundo só com o amor.

As igrejas que pregam um Evangelho enlatado ou um Evangelho de self-service jamais irão exercer ou incentivar esse tipo de amor ao próximo. No máximo elas poderão fazer um assistencialismo barato ou um evangelismo egocêntrico, no qual “eu” sou exemplo e quem for diferente de mim não será salvo. Definitivamente, isso não é Evangelho.

 Você tem observado quem ou o quê está no centro da sua igreja? Já parou pra pensar se está comprando Evangelho enlatado ou se é mais um cliente no buffet desse self-service? Sua igreja (e consequentemente você) servem o próximo ou servem a si mesmo? É bom, de tempos em tempos, fazermos uma análise honesta sobre isso, pois Evangelho que não faz diferença na sociedade não é Evangelho, é demagogia; igreja que não faz diferença, ao menos na comunidade onde está inserida, não é igreja, é clube social.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *