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Irmã Dulce: santa ou serva?

Há uma semana o Vaticano reconheceu oficialmente a primeira santa brasileira: Maria Rita de Souza Brito Lopes Potes, conhecida como Irmã Dulce. Desde maio deste ano, quando foi reconhecido o seu segundo milagre e anunciada a sua canonização, os baianos vivem uma grande expectativa para ver oficializado aquilo que eles já sabiam há muitos anos. A canonização de Irmã Dulce é motivo de orgulho e muita comemoração por aqui e na última semana contagiou todo o Brasil – que finalmente protagonizou uma boa notícia depois de meses passando vergonha no cenário mundial.

Mas a canonização de uma mulher nordestina que dedicou sua vida aos excluídos parece ter incomodado alguns, que fizeram questão de frisar: “ela não é santa, santo só Jesus!”. No meio evangélico, aliás, essa afirmação é bem comum de se ouvir, numa crítica direta à igreja católica por promover a idolatria de seres tão humanos quanto nós. Só que essa preocupação em apontar a idolatria alheia esconde a ignorância sobre o que diz a Bíblia em relação à santidade. Vamos dar uma relembrada:


“Sede santos porque eu sou Santo”


Na primeira carta de Pedro, capítulo 1:15-16, o apóstolo aconselha: “como é santo aquele que vos chamou, sede vós também santos em toda a vossa maneira de viver; porquanto está escrito: Sede santos, porque eu sou santo”.

Ao citar “Sede santos, porque eu sou santo”, Pedro faz referência à mensagem que Deus mandou Moisés dar ao povo de Israel em Levítico 19:2. Também no livro de Levítico, Deus reafirma a sua ordenança: “Sejam santos para mim, porque eu, o Senhor, sou santo, e separei vocês dos outros povos para serem meus” (Lv 20:26). Será que Deus daria uma ordem impossível de cumprir?

Em Hebreus, o autor também fala sobre santidade: “Procurem viver em paz com todos e busquem levar uma vida pura e santa, porque aquele que não é santo não verá o Senhor” (Hb 12:14). Já na carta de Paulo aos Romanos, ele é taxativo: “Agora, no entanto, estão livres do poder do pecado e são servos de Deus. E entre os benefícios que Ele dispensa a vocês está a santidade, cujo fim é a vida eterna” (Rm 6:22).

Está bem claro nestas passagens que a santidade é uma forma de vida! Não é perfeição, não é auto exaltação, mas sim uma maneira de viver que agrada a Deus.

Sabemos que somos imperfeitos e que nunca alcançaremos o nível de santidade que Jesus alcançou porque, como diz lá em Apocalipse 3:17, somos “desgraçados, miseráveis, pobres, cegos e nus”. Mas isso não nos impede de sempre buscar ao máximo viver de forma que agrade a Deus, mesmo sabendo que em muitos momentos vamos falhar. Quando obedecer e agradar a Deus é a nossa meta de vida, já estamos vivendo em santidade, portanto, já somos santos. E por esse motivo, sim, Irmã Dulce foi santa. Ela viveu uma vida inteira de dedicação e amor ao próximo, principalmente àqueles que ninguém quer amar, ninguém quer cuidar e a sociedade prefere esquecer que existem: os pobres.


Indisciplinada


Tive a honrosa oportunidade de entrevistar Maria Rita Lopes Pontes (sobrinha de Irmã Dulce e superintendente das Obras Sociais) e a Irmã Silvia Corado (que conviveu com ela e pertence à mesma congregação religiosa) e me surpreendi ao descobrir que ela era considerada pelas suas superiores como indisciplinada, porque não cumpria a rotina de orações e atividades da congregação e não obedecia às ordens de não sair tarde da noite. Irmã Dulce também recebeu muitas críticas por aceitar doações sem procurar saber a origem delas. Esses dois fatos, além de revelarem um pouco da sua humanidade, também mostram o quanto ela era obstinada e convicta em relação à sua missão aqui na Terra. Ela não se intimidou com as críticas porque visava uma obra maior e isso faz dela uma mulher ainda mais admirável. Sua saúde frágil (também descobri na entrevista) provavelmente foi fruto de um descuido de si mesma porque levou ao pé da letra o conselho que Paulo deixou na carta aos Filipenses: “sejam humildes, pensando dos outros como sendo melhores do que você mesmo” (Fp 2:3). Irmã Dulce era humana, era falha, mas certamente alcançou um nível de santidade muito maior que a maioria dos cristãos devotados.

Por isso, a despeito do conceito de santidade que a igreja católica utiliza, não tenho medo de dizer que Irmã Dulce foi santa e merece ser reconhecida como tal. Eu como mulher, nordestina, baiana e cristã tenho muito orgulho e me sinto representada por ela, que com sua vida resplandeceu a luz de Cristo e mostrou que é possível viver de acordo com o Evangelho. Sim, ela foi santa, mas também foi serva. Se estivesse viva, talvez recusasse a santidade, mas com certeza o título do qual ela não abriria mão é o de serva do Senhor. Que a vida de Irmã Dulce nos inspire a viver mais pra Cristo e a olhar mais pros nossos irmãos necessitados. Viva, Irmã Dulce! Viva Santa Dulce dos Pobres!



E se você quiser ouvir a entrevista com Maria Rita e Irmã Silvia Corado, tá aí o link do Madalenas. Sem dúvida foi um dos programas que mais me emocionou:


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