Liberdade no Evangelho: você pode
2 de novembro de 2016
Sororidade: nós precisamos disso
4 de novembro de 2016

Giseles, panicats e nós (meras mortais)

Lá pelo início dos anos 2000, Gisele Bündchen estava estourando no mundo fashion. Lembro-me que havia um discurso de que ela revolucionou as passarelas, pois era considerada uma modelo “corpuda”, com curvas brasileiras, que fugia dos padrões esquálidos europeus vigentes. Ela era exaltada pelos meios de comunicação e virou ícone de beleza. Na época eu tinha 12 anos e passei a alimentar o sonho de ser uma Gisele. Era magra, mas decidi que precisava emagrecer ainda mais. Deixei de comer, fiz regimes loucos, sem orientação de ninguém, e passei a me ver como gorda. Tudo que eu queria era ser magra como ela e passei anos empreendendo esforços para isso, sem êxito.

Depois, no final dos anos 2000, começou a surgir um outro modelo de beleza feminina: o modelo “panicat”. Os corpos das assistentes de palco do programa Pânico na TV (que depois virou Pânico na Band) de repente se tornaram objeto de desejo dos homens e sonho das mulheres, que lotaram as academias em busca de músculos evidentes, barriga sarada, coxas muito bem definidas e bumbum empinado. O whey protein tornou-se algo bem familiar para qualquer pessoa (até para quem não malha) e a combinação batata doce + clara de ovo ganhou uma popularidade até então inédita. Ainda bem que nessa época eu já estava com outros interesses e não me deixei levar por essa febre.

Hoje eu olho para Gisele Bündchen e vejo uma mulher exageradamente magra. Não consigo enxergar as “curvas” que a mídia tanto exalta e não consigo ver uma modelo que tenha quebrado paradigmas nas passarelas. Ela está totalmente enquadrada nos padrões: branca, loira, alta e com um peso que poucas conseguem manter na idade adulta. Também olho para as panicats e suas discípulas e vejo uma estética que, particularmente, não me agrada muito, pela masculinização dos corpos e pela rouquidão das vozes, que parece vir de brinde (!). Sem falar na vida extremamente regrada que é necessário ter para conquistar um corpo daqueles: muitas horas diárias de academia e alimentação restritíssima, para não falar dos “aditivos”, que a gente sabe que sempre rolam.

Mas o que o modelo Bündchen e o modelo panicat têm em comum? O patamar quase inalcançável para a maioria das mulheres. Pouquíssimas conseguem ser magras como Gisele. Pouquíssimas conseguem ser saradas como as panicats. E o preço para ter esses corpos tão desejados é altíssimo – em termos físicos, financeiros e também psicológicos. Não é à toa que quase ninguém consegue.

Então é isso: os padrões de beleza estão sempre muito acima da nossa capacidade de alcançá-los e mudam com uma frequência relativamente alta, pois a ideia é justamente dificultar o seu alcance. Quando a gente pensa que está chegando perto, mudam-se as regras. Simples assim. E aí a gente tem que se perguntar: vale a pena perseguir um ideal tão distante? Vale a pena fomentar uma indústria de beleza que lucra (e muito) às custas da neurose feminina? Quem ganha com isso?

As pressões que a gente sofre para ser eternamente linda e jovem constituem um fardo muito pesado, que nos foi imposto e naturalizado de tal modo que hoje se considera normal ver as mulheres eternamente insatisfeitas com seu corpo e com sua aparência – é como se fosse algo inerente à natureza feminina. Mas não, não é. A nossa insegurança vem de uma superexposição de corpos e belezas inatingíveis, cuidadosamente retocados com cirurgias plásticas, filtros e photoshop, que nos fazem acreditar que ser bonita é ser daquele jeito. Em meio a tudo isso, é muito difícil conseguir racionalizar que somos incentivadas o tempo todo a competir com mulheres que não são reais. Como uma mulher de carne e osso pode vencer uma mulher estampada numa foto profissionalmente manipulada, sem pneuzinhos, sem celulite, sem espinhas? Como uma mulher real pode ser mais bonita que uma atriz ricamente produzida e maquiada, filmada em seu melhor ângulo?  É uma competição desleal. E não são apenas os meios de comunicação que promovem isso. Somos muito cobradas nas nossas relações pessoais também. Essa cobrança para que nos enquadremos acontece em todos os níveis, escancarada ou sutilmente: A mulher precisa se cuidar!, Como pode uma pessoa engordar tanto assim?, Mas Fulana envelheceu, hein?, por que você não se arruma mais?, Assim você não consegue nunca um namorado!… e por aí vai.

O curioso é que ninguém escapa dessas pressões. Ninguém MESMO! Aquelas poucas que são consideradas “dentro dos padrões” sofrem muito para não sair dele. Elas não podem engordar, não podem envelhecer, não podem sequer aparecer de cara lavada sem receber uma série de críticas. Fulana já foi bonita, hein? é uma frase comum que costuma revelar a perversidade das cobranças e corta a sua vítima por dentro como navalha afiada. Portanto, não nos enganemos: a mocinha bonitinha sofre tanto quanto aquela que é considerada um patinho feio. É muito difícil atingir o padrão de beleza vigente, mas tão difícil quanto (ou até mais) é se manter nele.

Precisamos entender que numa sociedade machista como a nossa, o problema não é ser feia ou bonita, não é ser gorda ou magra, não é ser negra de cabelo crespo ou branca de cabelo liso. O problema é ser mulher. A gente sofre por causa disso, e não por causa da aparência fora dos padrões. A aparência é só uma desculpa. Enquanto nos mantemos ocupadas demais tentando alcançar um perfil considerado ideal, deixamos de trocar experiências, de alicerçar nossas amizades, de pensar e agir politicamente… deixamos de nos fortalecer enquanto grupo. E o que é pior: permitimos que o sentimento de competição e rivalidade prevaleça entre nós. Nada mais útil para manter o status quo, não? Dividir para dominar – esse é o lema do machismo.

Não é fácil romper com esses padrões. É uma luta diária e permanente, mas precisamos persistir. Não há um caminho único para ser bonita e beleza por si só quase nunca é sinônimo de felicidade. Também não é o único objetivo de vida de uma mulher. Por que temos que aceitar isso? Por que não nos amarmos como somos, aceitarmos nossos corpos reais e nos livramos de um fardo histórico e tão limitador para nós mesmas? Por que não investir mais tempo na pessoa que somos por dentro, ao invés de investir apenas na aparência? Por que temos que agradar aos outros e não a nós mesmas? Não é fácil, mas é libertador. Nossos corpos pertencem somente a nós e não podemos permitir que virem alvo de regras que não nos contemplam, mercadorias a serem apreciadas ou rejeitadas nas prateleiras. Comece hoje a gostar de si. Aprenda a se respeitar e a entender suas limitações, a valorizar seus pontos fortes e a não se comparar com ninguém, pois cada mulher é única. Disso depende a nossa felicidade.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *