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Nesses meus dezesseis anos de igreja eu já vi e ouvi muita coisa. Uma espécie de “doutrina”, das muitas que já escutei, é a de que as moças devem se casar com seu primeiro namorado. Certa vez li num famoso blog cristão o depoimento de uma garota que narrava o seu sofrimento por não ter conseguido essa façanha e por ter se casado com seu segundo namorado. Como assim, gente?!?!?

Os líderes e igrejas que pregam isso costumam defender uma pureza extrema, na qual a moça se guarda inteira e completamente para o seu marido. Para manter esse nível de pureza, portanto, só casando mesmo com o primeiro namorado, pois até um beijo pode macular esse “estado de graça”. Nem preciso dizer aqui o quão medieval e perversa é essa doutrina, não é? E o pior de tudo é que muitas vezes ela se justifica por um discurso de cuidado com as mulheres, pois os adeptos argumentam que essa é a melhor forma de fazer com que elas encarem os relacionamentos com a seriedade que eles devem ter e evitem se relacionar casualmente, sem compromisso, para não se machucar. É uma espécie de incentivo a buscar o namorado certo, não perder tempo com homens que não querem compromisso e minimizar ao máximo as desilusões e frustrações amorosas. Mas quem disse que precisamos ser protegidas das frustrações???

Primeiro de tudo é importante ressaltar que essa doutrina não é bíblica, não foi ensinada por Jesus, mas encontrou respaldo no machismo e ecoa muito fortemente nos dias de hoje, nos mais variados níveis, pois agrada (e muito) aos homens. Se quisermos seguir exatamente o que a Bíblia ensina, teremos que voltar aos casamentos arranjados, sem namoro, nos quais os pais escolhiam os cônjuges de seus filhos e muitas vezes ele sequer se conheciam. E aí, alguém se habilita?

A Bíblia não fala sobre namoro simplesmente porque ele não existia na época em que ela foi escrita. Isso não significa que namoro é pecado. A Bíblia é um retrato do seu tempo e relata os fatos da forma como eles aconteciam na época – simples assim. Temos que pedir sabedoria e discernimento a Deus para entender as questões culturais e os costumes que estão por trás das narrativas bíblicas e não querer trazê-los à força para os dias de hoje, quando não cabem mais – a cultura mudou, os costumes mudaram, os tempos são outros.

Nos dias de hoje, as pessoas começam a ter seus primeiros relacionamentos amorosos muito cedo, com 13 ou 14 anos, até antes disso. A adolescência é a fase da explosão de hormônios, os desejos são absolutamente normais e isso é biológico – não há nada que se possa fazer para reprimir o despertar sexual dos adolescentes e chamar isso de pecado é a maior das ignorâncias. O que não quer dizer, no entanto, que se deva adotar uma vida de promiscuidade e permissividade por conta disso. O namoro na adolescência é saudável e pode contribuir para o desenvolvimento pessoal. É óbvio que um adolescente dificilmente acertará na escolha dos seus primeiros relacionamentos, pois lhe falta experiência de vida. Mas é bom que ele passe por isso, pois as experiências trarão amadurecimento e o ajudarão a estabelecer critérios para a escolha de um parceiro(a) legal.

Nessa fase, é preciso que haja muito diálogo entre filhos, pais e igreja e que estes os orientem para lidar com essa sexualidade que surge com responsabilidade e sabedoria (dentro dos limites de um adolescente, claro!). Uma das coisas boas que a igreja me ensinou foi a escolher meus namorados como se estivesse escolhendo um marido, ou seja, só namorar com um cara se eu achasse que ele seria um bom marido para mim. Isso me ajudou a eliminar possíveis relacionamentos-problema, mas é claro que o meu conceito de “bom marido” foi se aperfeiçoando com o tempo e com algumas experiências frustradas. Não tive muitos namorados, mas os que tive me fizeram amadurecer para os relacionamentos e me possibilitaram escolher o cara com quem eu sou casada hoje. E graças às minhas experiências anteriores eu pude acertar na minha escolha! Mas se eu tivesse me casado com meu primeiro namorado, com certeza seria muito infeliz, pois não tinha maturidade para fazer essa escolha tão cedo.

Não estou aqui querendo dizer que casamentos firmados com o primeiro relacionamento não dão certo. Sim, eles podem dar certo e eu até conheço alguns. Porém, isso não pode ser uma regra que vale para todo. As pessoas são diferentes, vivem em contextos diferentes e passam por experiências diferentes. Não dá para botar todos no mesmo barco.

Uma igreja que adota esse discurso de ter de casar com o primeiro namorado exerce o machismo duas vezes: primeiro porque isso é exigido com muito mais veemência para elas, enquanto que eles… bem, não tem problema o cara ter uma ou duas namoradinhas antes de casar, né? Segundo porque se a mulher casar com o seu primeiro namorado e esse casamento não der certo, o prejuízo emocional será muito maior para ela, que é a responsável por “edificar o lar” (um ensinamento bíblico altamente deturpado para favorecer os homens, claro). Ou seja: se o casamento der errado, quem sofrerá mais será ela, pois terá que conviver com a culpa de não ter tido sabedoria para mantê-lo. Ou terá que viver frustrada dentro de uma relação corrosiva. Já o homem… esse tem permissão velada para trair de vez em quando, né? É socialmente admissível que tenha sua válvula de escape, ainda que muitos não digam isso abertamente (mas ajam de acordo com esse pensamento, o que é bem pior). Deu para entender a crueldade desse discurso de “casar com o primeiro namorado”? Os homens não têm prejuízo com isso, apenas nós, mulheres.

Então a partir de agora vamos ficar mais espertas e recusar imposições desse tipo, principalmente se partirem daqueles que mais dizem defender a família. Quem defende a família defende um casamento saudável e ele não pode começar de forma imatura. Podemos ser mais criteriosas, sim, na escolha de nossos relacionamentos, mas se não der certo, não somos obrigadas a acertar de primeira (nem de segunda). É melhor terminar um namoro do que terminar um casamento e para escolher um casamento é preciso muita segurança e maturidade. Não podemos permitir que as principais escolhas da nossa vida sejam tomadas por terceiros. Você escolhe quem namora. Você escolhe com quem casa.

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