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A igreja e a violência contra a mulher

No Brasil, a cada 2 minutos, 5 mulheres são espancadas; a cada 11 minutos, 1 mulher é estuprada; e a cada 90 minutos, 1 mulher é assassinada. Esses dados foram disponibilizados pela Agência Patrícia Galvão, criada para produzir notícias e conteúdos sobre os direitos das mulheres brasileiras. O fato espantoso é que, segundo o site, mais de 80% dos casos representam violência cometida por homens com quem as mulheres vítimas mantinham ou já haviam mantido algum tipo de relação afetiva (maridos, namorados, amantes, ex-maridos, ex-namorados ou ex-amantes). Em poucas palavras, a violência doméstica representa a maior parte dos casos de violência contra a mulher em nosso país. E quem mais comete esse tipo de violência são aqueles que, em tese, deveriam amá-las.

E o que é que a igreja evangélica tem a ver com isso? Absolutamente tudo! Porque mulheres crentes também são vítimas de violência doméstica; porque homens crentes também praticam atos de violência contra suas mulheres; e porque a igreja, infelizmente, muitas vezes tem agido como cúmplice no meio de tudo isso. Como membro da igreja evangélica brasileira, me dói ter que admitir essa triste e vergonhosa realidade, mas não dá para negá-la.

O discurso fundamentalista e a postura inflexível de muitas igrejas sobre o divórcio se transformam em um meio de opressão para milhares de mulheres que vivem em situação de risco por estarem expostas à violência doméstica. Muitas igrejas afirmam permitir o divórcio em casos de agressão física, mas pecam por não levar em consideração a violência verbal e psicológica que, em muitos casos, precedem-nas. É certo que muitas mulheres não denunciam seus companheiros na primeira agressão – elas levam um bom tempo sendo agredidas até tomar coragem (e muitas nunca tomam). Mas a partir do momento em que uma mulher procura um pastor ou um líder para pedir aconselhamento e expõe sua história de vida, não é raro escutar um “vamos orar para que Deus opere no seu casamento”. Há também aquelas que escutam coisas do tipo: “seu marido não é crente, você precisa dar bom testemunho para atraí-lo para a igreja e só assim o seu problema será resolvido”. Em alguns casos, o marido é chamado para uma conversa no gabinete, o que não resolve muita coisa. Em outros casos, nem isso é feito (principalmente quando ele não é membro da igreja).

Não quero aqui generalizar, pois sei que existem muitas igrejas que fazem um bom trabalho de acompanhamento de casais e que não hesitam em incentivar o divórcio quando detectam uma situação dessas. Mas estou falando de uma outra realidade que também está em nosso meio e que tem vitimado muitas mulheres: a realidade da omissão e da culpabilização da vítima. Sim, porque quando um líder toma conhecimento de uma história de agressão (seja ela, psicológica, verbal ou física) e diz que a mulher precisa orar mais ou dar bom testemunho dentro de casa, está partindo de dois pressupostos errados: 1) que ela, enquanto crente, não está fazendo essas coisas, logo, tem culpa por estar passando por isso; e 2) que as suas orações de líder surtem mais efeito e que, a partir de agora, com ele intercedendo pela vida dela, as coisas irão mudar. Quando a mulher é casada com um não crente, a culpabilização fica um pouco mais explícita, pois com frequência ela ouve que está pagando o preço da desobediência, ou seja, de um casamento de jugo desigual. Como se os homens crentes não agredissem também. E como se ela tivesse que carregar essa cruz pelo resto da vida por ter se casado com um descrente. Em resumo: sempre culpada.

Outro tipo de violência muito comum nas igrejas é o estupro de mulheres pelos seus próprios maridos. A orientação de Paulo em 1 Co 7:4 é distorcida e utilizada para justificar esse ato, pois alegam que se o corpo da mulher pertence ao marido, então ela não pode recusar o sexo em hipótese alguma. Esquecem que a mesma passagem diz que o corpo do homem também pertence à esposa e que Paulo em nenhum momento fala que a recusa ao sexo por parte de um dos cônjuges deve ser resolvida à força. Esse tipo de violência é ainda mais difícil de ser detectado. Raramente as mulheres falam sobre isso com alguém e, em muitos casos, elas sequer sabem que estão sendo vítimas de estupro. Afinal de contas, foi o seu marido, né? Elas acreditam na história de que seu corpo não lhes pertence, segundo a interpretação errada e distorcida da fala de Paulo.

Está na hora de mudarmos essa postura enquanto igreja. Deus não criou o casamento para ser um instrumento de opressão de vida de ninguém, pelo contrário, ele deve ser canal de bênçãos e felicidade. E se não está sendo, algo precisa ser mudado. É preciso falar sobre violência contra a mulher dentro da igreja, sim, pois ela existe e homens que se dizem crentes também a praticam. A mulher tem o direito de saber que está sendo alvo de agressão e que isso não tem nada a ver com falta de oração ou de bom testemunho. Ela tem o direito de saber que não precisa chegar ao extremo de apanhar para que possa ser considerada vítima de violência doméstica e que existe, sim, estupro dentro do casamento – e que ela não deve aceitar isso. A informação é nossa maior arma e esse tipo de discussão na igreja deve ser promovido.

Por outro lado, os homens também precisam ser informados que a submissão feminina não tem nada a ver com a aceitação passiva dos mandos e desmandos do marido, com obediência cega e com a anulação da mulher enquanto ser humano. Uma esposa não é uma escrava. Eles precisam saber que não têm o direito de forçar uma relação sexual, que sexo tem que ter consentimento mútuo e que se não for assim, é estupro. Precisam conhecer as diversas formas de violência para que não as pratiquem contra suas esposas nem usem o fraco argumento do “mas eu nunca bati nela…”.

Por fim, a igreja precisa parar de demonizar o divórcio e admitir que em muitos casos só ele é a solução. Chega de hipocrisia! Um casamento que envolve violência NÃO é um casamento, pois não está de acordo com as leis de Deus. Não estou desprezando o poder da ação divina na restauração das relações conjugais, mas Deus só pode agir quando ambos os cônjuges querem e permitem, não adianta somente a mulher se esforçar. E, convenhamos, é muito arriscado manter uma vítima sob o mesmo teto que o seu algoz, pois quem agride pode, sim, matar. Quando uma mulher que suporta agressões por anos a fio finalmente consegue vencer o medo e compartilha o seu problema com o pastor ou líder, ela está literalmente pedindo socorro e quer uma ajuda concreta. Tudo o que ela menos precisa é ouvir um “vamos orar”, pois com certeza ela já vem fazendo isso.

Quero concluir dizendo que não existe oração sem ação. O Evangelho é prático porque Jesus foi prático. Ele orava e agia para mudar a vida das pessoas e é assim que devemos fazer também, seguindo Seu exemplo. A igreja não pode ser cúmplice da violência doméstica nem pode se eximir alegando que é um problema pessoal de relacionamento. Também não pode exigir que esse tipo de casamento seja indissolúvel, pois isso nada mais é do que o farisaísmo que Jesus tanto repudiou. A lei não pode estar acima da vida.

É preciso ainda muito trabalho para extirpar de vez o machismo do nosso meio e mudar a visão distorcida, construída ao longo de séculos, acerca da relação homem-mulher dentro do casamento. Mas precisamos começar de alguma forma, pois essa é uma das demandas mais urgentes do nosso meio cristão. Se você conhece alguma mulher que tem sido vítima de violência doméstica, não seja cúmplice do agressor. Converse com ela, ofereça ajuda. Jesus com certeza faria isso.

1 Comentário

  1. Bianca disse:

    Amei ler alguns de seus posts, é exatamente isso que venho defendendo também, mas é incrível como nossas vozes não são ouvidas, como esse tipo de assunto é evitado e como precisamos ser fortes diante dessas situações. Como você disse no final deste artigo não podemos fechar os olhos, eu sempre ofereço ajuda às mulheres que estão ao meu redor, mas por ser divorciada e ter tido filhos sem me casar depois, sou mal vista, como se eu agora quisesse destruir todos os casamentos à minha volta. Perdi várias amizades por conta disso, muitas se afastaram de mim, provavelmente aconselhadas a se afastarem por eu não ser casada e pelas idéias que defendo.
    Não, eu não sou uma frustrada como já me falaram, eu apenas não aceito mais qualquer coisa, não aceito ser submetida à uma posição de inferioridade, principalmente na Igreja.
    Vejo muitas mulheres condenando o feminismo, como se fosse algo demoníaco, isso porque realmente não querem que saibamos quais são nossos direitos, não querem que abramos os olhos.
    Eu acredito em um Deus amoroso que me criou com igualdade de direitos, que quer ver suas filhas felizes tanto quanto quer ver os seus filhos felizes. Um Deus que não faz acepção de pessoas, ou seja, não trata ninguém com distinção. Seus mandamentos são para todos, não apenas para um determinado gênero, o que se é exigido das mulheres também é exigido dos homens.
    Nossas particularidades de gênero devem sim ser respeitadas, mas não servir de base para preconceito, discriminação e subversão de direitos.

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