Sem palavras pra realidade
2 de junho de 2021

A cilada do namoro de corte

Se você é crente e nunca ouviu falar em namoro de corte, sorte a sua. Trata-se de uma orientação ultra-conservadora e sem fundamento bíblico adotada por algumas igrejas, que pregam um namoro sem nenhum tipo de contato físico: nada de beijos, abraços, mãos dadas… apenas conversas. Em muitos casos, o casal é constantemente acompanhado por uma terceira pessoa, que pode ser uma liderança ou um amigo em comum, para evitar que “caiam em tentação”. Parece surreal, né? A justificativa é linda: fazer com que o casal desenvolva primeiro uma relação de amizade, companheirismo e diálogo, para que o relacionamento não seja alicerçado em desejos carnais. Pena que não funciona. E pena que a verdadeira intenção é outra.

Já falei em vários textos aqui que o controle dos corpos, principalmente dos corpos femininos, é um valor caro para a igreja conservadora dominante. Se há dois tipos de dominação que são imprescindíveis para o exercício da autoridade de instituições que promovem uma religiosidade duvidosa ao invés de fé, são eles a dominação da mente e do corpo. Mentes aprisionadas e amedrontadas em corpos docilizados e obedientes são uma fórmula infalível de controle, que permite a perpetuação e o sustento de esquemas desonestos de religião. Pessoas controladas não questionam, não subvertem e não enxergam as mazelas de um sistema que só as explora e usa a fé para lhes manipular. E o controle através da sexualidade é uma forma potente de paralisar e amedrontar especialmente as mulheres, que são os maiores alvos dessa vigilância. Nesse contexto, a orientação para o namoro de corte (que muitas vezes é uma verdadeira imposição da igreja) cai como uma luva para alcançar esse propósito.

Paremos pra pensar: a quem interessa a vigilância do namoro? Será que Deus está mesmo preocupado com beijos e abraços ou será que por trás disso há uma instituição exercendo sua autoridade e poder sobre a vida das pessoas e mantendo-as prisioneiras através de um discurso de culpa?


Fardos pesados


Toda forma de religiosidade extrema, repleta de fanatismos e exageros, tende a ser rasa e a não se sustentar por muito tempo. Ninguém consegue viver uma vida cheia de privações, como propõem muitas igrejas. Proibições em excesso (que vão desde a forma de se vestir até a forma de pensar, agir ou falar), demonização de tudo que não esteja diretamente ligado ao sagrado, obediência cega às lideranças, estímulo à vigilância da vida dos irmãos… tudo isso compõe um quadro religioso muito pesado, mas infelizmente muito comum no cenário evangélico brasileiro.

Igrejas que ditam comportamentos e controlam todos os aspectos da vida dos fieis acabam por sufocá-los. Geralmente elas não estimulam o desenvolvimento de um relacionamento pessoal com Deus nem tampouco promovem estudos substanciais da Bíblia. Limitam-se a ensinar fórmulas prontas, repetir versículos fora do contexto e estimular uma religiosidade padrão pra todo mundo, que muitas vezes é tão somente uma ritualística vazia e sem sentido. Essas coisas não são suficientes para alimentar a sede espiritual e, aliadas à um rol de proibições que drenam todo o prazer do indivíduo, só podem levar a dois caminhos: o de uma vida de hipocrisia, que por trás da fachada de santidade e obediência esconde transgressões inimagináveis, ou o do abandono da fé, gerando os “desviados”.

O namoro de corte é mais um desses fardos pesados que leva muita gente a viver na hipocrisia ou a se desviar do Evangelho. Nos dias de hoje, já é difícil  encontrar jovens dispostos a viver em abstinência sexual até o casamento. Imagine então quantos estão dispostos a abrir mão de um namoro normal para viver algo totalmente fora da realidade (e desnecessário, diga-se de passagem). Não se trata aqui de dar vazão à carne, mas sim de ser realista e não demonizar o desejo natural que surge entre casais de namorados.

Quando a igreja adota o discurso de que um simples beijo entre namorados é pecado e ensina que o beijo leva ao sexo pré-matrimonial, ela tá prestando dois desserviços: o primeiro é a demonização do sexo, que gera repressão, culpa e vergonha e traz graves consequências para a vida conjugal do casal. E o segundo é a internalização da irracionalidade, fazendo as pessoas crerem e admitirem que não existe auto-controle e que se acontecer um beijo, necessariamente vai rolar sexo. E adivinhem o que acontece quando se tem essa crença enraizada e, de repente, surge a oportunidade de um beijo…?

Enfim, tudo em torno do namoro de corte é um misto de fanatismo com terrorismo e romantização excessiva do casamento. Os pastores dizem que os namorados devem se guardar por inteiro para fortalecer a relação de amizade e companheirismo, mas não é o fato de não haver beijos, abraços nem sexo que vai garantir isso. Para se ter uma relação sólida e madura, é preciso que haja maturidade no casal. Mas se para esse mesmo casal não é possível sequer que haja um beijo sem que termine em sexo, onde está a maturidade? Seguir uma regra pré-estabelecida é sinônimo de ser maduro?

E não, o casamento não é esse lugar estável e seguro onde todas as pessoas conseguem realização plena e imediata. Casamento é construção que ocorre dia após dia, depende do esforço contínuo de ambos os cônjuges para dar certo e isso também exige maturidade. Um casamento feliz não cai do céu só porque o casal seguiu um namoro de corte ou casou virgem – essa é uma das maiores mentiras que o meio evangélico alimenta e que causa sérias feridas emocionais em muita gente.

Ao impor o namoro de corte, as igrejas estão gerando casais frágeis emocionalmente, que não sabem distinguir o que é bom pra eles porque são dependentes de orientação das lideranças. Esses casais provavelmente contrairão matrimônio precocemente, sem se conhecer direito, porque quem adota um namoro de corte não passa muito tempo namorando – a tendência é casar logo para satisfazer os desejos, o que pode ser bem desastroso. E não para por aí: as chances desses casais terem problemas sexuais por conta da excessiva repressão a que foram submetidos é alta. Ninguém que passa uma vida reprimindo a própria sexualidade consegue se livrar das consequências disso do dia pra noite, só porque casou. A gente subestima o peso dos discursos repressivos da igreja, mas eles ficam guardados em nosso inconsciente e têm um enorme poder corrosivo a longo prazo (fiz um texto falando um pouco mais sobre isso aqui). Acredite: você não precisa seguir um modelo de relacionamento tão castrador para viver um namoro ou casamento santo e saudável.

O namoro de corte, por ser algo muito difícil de ser cumprindo, tem tudo para gerar grandes frustrações e culpas, casamentos instáveis, imaturos, infelicidade conjugal e muita, mas muita hipocrisia. Não há fundamento bíblico algum nisso e nem provas substanciais de que dá certo (quantos casais você conhece que tiveram namoro de corte e vivem hoje um casamento feliz e longevo?). É um conceito que demonstra tão somente o moralismo farisaico da igreja, que insiste em controlar a sexualidade das pessoas como quem exerce um fetiche – talvez tentando esconder os desvios sexuais de seus próprios líderes, que vira e mexe vêm à tona e escandalizam a sociedade.

Jesus sempre deixou claro que pra Deus não interessa o mero cumprimento de regras e rituais, mas sim o nosso coração. Não foi à toa que um dos seus sermões mais indignados foi contra os fariseus, que exigiam uma obediência rigorosa da lei, mas eles próprios não a obedeciam (Mt 23). Jesus também nos ensinou que o seu jugo é suave e o seu fardo é leve (Mt 11:28-30), portanto, o caminhar com Ele não é uma prisão. Desconfie dos excessos; questione discursos que associam santidade ao cumprimento de regras; ore; leia e estude não só a Bíblia, mas também outros materiais complementares que possam te ajudar a interpretá-la; e sobretudo, invista no seu relacionamento pessoal com Deus, pois você não precisa de um pastor ou líder para dizer como conduzir sua vida e seus relacionamentos: o próprio Deus pode te guiar se você viver em intimidade com Ele. Não permita que essa relação seja intermediada por fanáticos ou pessoas mal intencionadas, que vão te aprisionar numa religiosidade vazia, hipócrita e frustrante.


 

(Ainda tratando desse assunto de repressão sexual e santidade no relacionamento, fiz uma série de textos sobre virgindade e sexo antes do casamento que você pode ler aqui.)



1 Comentário

  1. Rosângela disse:

    Essa madrugada chorei pra Deus e pedi uma luz pra me libertar da opressão. Encontrei teu blog. Eu sempre discordei de muitas posturas e opiniões machistas dentro da igreja. Me percebi machista também. Preciso me libertar. Chega a ser violência e opressão o que eu vivo.

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