Quase uma bolha – o mundo da mulher crente
6 de abril de 2017
A polêmica do divórcio na igreja (parte 1)
19 de abril de 2017

O desserviço prestado pela Globo ao mostrar cenas de agressão e violência psicológica protagonizadas pelo casal BBB Marcos e Emily com a aprovação dos telespectadores (que votaram para manter o agressor no programa), serviram ao menos para reacender o debate sobre os relacionamentos abusivos, assunto que precisamos ainda discutir exaustivamente para alertar as mulheres – que são as maiores vítimas. Muitas passam ou já passaram por isso e talvez nem saibam, assim como eu não sabia quando enfrentei um.

Quando era adolescente eu namorei um cara. Achava que ele era um bom rapaz, pois era estudioso, responsável, inteligente e me transmitia certa segurança. Namoramos por quase um ano e meio, mas ao longo do relacionamento fui percebendo que ele era um tanto vaidoso e orgulhoso. Às vezes tinha a impressão de que ele competia comigo, mas logo descartava essa ideia por achar que era absurdo demais, logo, era coisa da minha cabeça.

Perto de completarmos um ano eu já não me sentia tão bem com ele. Não sabia ao certo o que estava dando errado, mas às vezes me sentia como se eu fosse inferior. Também me incomodava o fato de ele insistir para que tivéssemos relações sexuais, pois eu era virgem e ainda não me sentia preparada. Porém, tinha medo de terminar e não conseguir encontrar um namorado melhor. Achava que podia sentir falta dele e temia que ele não me quisesse mais. Depois de alguns meses pensando, resolvi terminar e me surpreendi com sua reação: ele insistiu, quase implorou para que não terminássemos. Fiquei surpresa porque ele era vaidoso demais para agir assim e acabei me sentindo culpada. Talvez eu estivesse exagerando, talvez fosse somente uma fase ruim do namoro. Então resolvi voltar atrás.

Dois meses depois a relação estava insustentável para mim. Sentia como se a obrigação de fazer o namoro dar certo fosse toda minha. Ele havia acabado de entrar na faculdade, enquanto que eu ainda estava no cursinho pré-vestibular e muitas vezes esse era o seu argumento para me convencer de que ele não tinha tempo e que eu é quem deveria correr atrás dele. Eu tinha obrigação de ir vê-lo (apesar da sua faculdade ser bem próxima da minha casa), eu tinha que correr atrás de livros para ele estudar, eu tinha inclusive que ir ao banco pagar suas contas, pois ele simplesmente “não tinha tempo”. E quando ele me disse que eu tinha a mentalidade do século passado porque não queria transar com ele, apenas respondi friamente que sim, eu havia nascido no século passado (sou de 1988! :-p) e senti muita raiva de mim mesma por estar passando por isso. Mas aí vinha de novo o velho medo: “não vou achar ninguém melhor. Quem vai me querer?”. Depois de muito me torturar com essa relação danosa, decidi que era melhor ficar só. Tomei coragem e terminei definitivamente.

Bastaram alguns poucos dias para que eu começasse a me sentir mais bonita, mais inteligente, mais segura. Várias pessoas me falaram isso também, mas achei que era só porque eu estava feliz e aliviada de ter terminado uma relação que já tinha virado um fardo pesado para mim. Segui minha vida normalmente: entrei na faculdade, conheci outras pessoas, passei a aprender coisas novas e esqueci esse episódio. Mas foi conversando com uma colega de sala, mais velha que eu e feminista, que tive que “voltar um pouco a fita” para começar a entender o que eu tinha vivido com esse namoro.

Eis os fatos: eu tinha um namorado que estudava na mesma sala que eu na escola e que pegava as minhas provas para questionar os professores por terem me dado uma nota maior que a dele (afinal, eu não era tão inteligente assim!); que me dizia que eu não tinha capacidade para entender as aulas de exatas; que chegou a me dizer que eu seria uma professora medíocre quando o meu sonho era me formar em letras para ensinar; que insinuava que outras garotas eram mais atraentes que eu; que se incomodava com meu jeito espontâneo e extrovertido simplesmente porque eu “roubava a atenção” onde eu chegava, ao contrário dele, que era sério e calado; que não me respeitava a ponto de começar a exigir que nós tivéssemos relações sexuais, ainda que eu explicasse mil vezes que não me sentia preparada… claro que tudo isso não era apenas impressão ou invenção da minha cabeça! Dois anos depois, eu descobri que tinha sido vítima de um tipo de abuso e, mais recentemente, descobri que esse abuso tem nome: GASLIGHTING.

Quando um dos parceiros mina a autoestima e a autoconfiança do outro para conseguir se sobressair, tem algo errado aí. Quando ele manipula os fatos para fazer com que o outro ache que está louco, que é “só uma impressão”, que “é coisa da sua cabeça” ou quando sempre joga a culpa no outro e, assim, justifica até os seus próprio erros, tem algo de muito errado aí. Com ajuda dessa colega de faculdade, descobri o quanto isso é comum com mulheres, pois é assustadora a quantidade de homens que só consegue se relacionar assim – depreciando a parceira, diminuindo-a, fazendo-a se sentir inferior. Então eu pude entender porquê que tantas mulheres se submetem a um relacionamento violento, onde são agredidas fisicamente por seus namorados/noivos/maridos: porque primeiro eles tratam de dominá-las psicologicamente, fazendo-as acreditar que não são inteligentes, não são capazes, não têm valor, não são desejadas por outros homens e que dependem deles para viver. Depois que elas estão completamente vulneráveis, com a autoestima destruída e acreditando cegamente que sem eles não são nada, eles passam da agressão psicológica para a agressão física. Daí em diante é fácil entender, né? Elas suportam as agressões por acharem que esse é o tratamento que elas merecem e que nunca vão conseguir um parceiro melhor por serem tão “inferiores”. Esse é o caminho da violência contra a mulher: começa pela dominação psicológica e culmina na dominação física (seja ela com surras, seja com o estupro da própria parceira).

É claro que a minha história foi uma versão teen desse fato, com sintomas mais “leves” (mas que para mim foram bem pesados à época, pois eu só tinha 17 anos). Graças a Deus tive força para romper esse ciclo e não cheguei a um nível mais grave, mas a minha autoestima e autoconfiança levaram um bom tempo para ser recuperadas, o que para uma adolescente é bem problemático e traz alguns traumas. Passei um tempo sem querer saber de namorados ou ficantes – não queria nem pensar nisso! Porém, sei que milhares de mulheres vivem situações análogas, mais ou menos graves que a minha, e é importante que estejamos atentas aos sinais, afinal, violência contra a mulher não é apenas agressão física.

Existem homens que precisam “pisar” em suas parceiras para “subir”, que têm necessidade de diminuí-las para, assim, se sentirem maiores. Isso não é, de forma alguma, uma relação saudável. Se o seu parceiro desperta em você sentimentos de inferioridade e vergonha, se você acredita que ele é bom demais para você e se morre de medo de perdê-lo, chegando muitas vezes a se anular para não decepcioná-lo, fique alerta. Talvez você esteja sendo vítima de gaslighting, que com muita facilidade pode evoluir para uma agressão física. Por isso é importante que conversemos mais umas com as outras, que não nos calemos diante de fatos que nos incomodam na nossa vida privada, por mais que a gente ache que “só acontece conosco”. Não! Os nossos problemas são universais. Se eu tivesse falado pra minha mãe tudo o que acontecia nesse meu relacionamento, talvez ele não tivesse durado tanto, pois certamente ela me orientaria. Por isso, fale! Fale com sua mãe, com sua melhor amiga, com sua terapeuta, com uma mulher mais velha de sua confiança… fale com outras mulheres! A gente se entende, a gente também passa por isso, a gente se ajuda. Não podemos mais aceitar esse tipo de tratamento. Nós não somos inferiores, não somos culpadas. Nós não somos loucas.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *