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Há alguns meses vi no Youtube o vídeo de um famoso congresso para mulheres no qual jovens senhoras, lideradas por uma cantora do meio gospel, discutiam sobre a obrigação da mulher de estar dentro de casa pois, segundo elas, isso é bíblico (fiquei aguardando o momento em que elas citariam a passagem da Bíblia que fala sobre isso, mas não aconteceu. Por que será?). Elas também testemunharam das maravilhas que Deus fez em suas vidas a partir do momento em que deixaram seus trabalhos para cuidar da casa e incentivaram as mulheres ali presentes a fazer o mesmo. Fiquei me perguntando: o que será que passa na cabeça dessas pessoas? Em que mundo vivem essas mulheres?

Não tenho absolutamente nada contra mulheres que vivem para o lar, que assumem integralmente o papel de donas de casa e se dedicam a cuidar de seus filhos e maridos. Ao contrário, elas têm minha admiração, pois exercem um trabalho que não é reconhecido pela sociedade, não ganham salário nem hora extra, não têm férias e muitas vezes ainda têm que escutar as pessoas falarem que elas não fazem nada, só ficam em casa. Porém, quando se prega que é bíblico que as mulheres sejam donas de casa e as manda saírem dos seus trabalhos para cuidar da sua família, há dois grandes problemas aí:

1º) não são todas as mulheres que têm o privilégio de serem casadas com homens que ganham o suficiente para sustentar a casa sozinhos. Muitas nem são casadas, é bom lembrar. Basta olhar ao nosso redor para perceber que no Brasil existe um número expressivo de famílias que são sustentadas por mulheres, pelos mais diversos motivos: seja porque o marido morreu, seja porque ele simplesmente abandonou a família, porque nunca assumiu seus filhos ou porque tem algum tipo de dependência… não importa. O fato é que quem sustenta a casa e bota comida na mesa, em muitos casos, é a mulher. Então perceba o quão irresponsável é dar um conselho desses num país onde a desigualdade social reina e onde poucas mulheres podem se dar o luxo de optar se querem ficar em casa cuidando dos filhos ou não.

2º) A partir do momento em que alguém diz que é dever das mulheres se dedicar exclusivamente à família e aos trabalhos de casa, não é preciso nem discutir muito sobre o quão desrespeitoso isso é, pois parte do pressuposto de que todas são iguais, têm a mesma vocação e os mesmos dons. A nossa sociedade parece que ainda não entendeu que as mulheres, assim como os homens, são diferentes entre si. Existem as que adoram ficar em casa, lavar, passar e cozinhar (conheço várias assim). Mas também existem aquelas que não gostam do trabalho doméstico – ou nem têm habilidade para – e preferem sair pra rua para exercer outro tipo de trabalho que lhes dê mais prazer e satisfação. Qual é o problema nisso? É tão difícil entender e respeitar essa heterogeneidade? É tão difícil aceitar que cada uma faz o que quer, o que gosta e o que pode fazer de suas vidas?

É inacreditável o fato de ainda termos que discutir sobre esse dilema em pleno século XXI. O rumo que cada mulher dá à sua vida não pode ser uma obrigação imposta, mas sim uma escolha pessoal. Tá certo que algumas não têm lá muita opção de escolha, o que é mais um motivo para serem respeitadas. Mas existem mil maneiras de ser uma boa mãe e uma boa esposa e isso não está atrelado a um único caminho que todas devem seguir. Portanto, não é papel da igreja aumentar o fardo da mulher, deixá-la culpada ou fazê-la pensar que está em desacordo com a Bíblia quando na realidade existe um contexto social que não pode nem deve ser desprezado. Jesus jamais faria isso. O papel da igreja é amparar as mulheres e dar subsídios para que elas possam ter equilíbrio espiritual e emocional para encarar e (por que não?) mudar sua dura realidade através do Evangelho. Isso, sim, Jesus faria – e fez.

Por isso, quero encorajar todas as mulheres cristãs a recusar todo e qualquer estereótipo que a igreja ou a sociedade queira impor para elas. Nós somos únicas e ninguém tem o direito de nos obrigar a fazer escolhas e seguir caminhos que não queremos. Também é importante estudar e conhecer a Bíblia, pois só assim teremos condições de identificar falsas doutrinas a nosso respeito e de combater aqueles que usam o nome de Deus para manipular nossas vidas. Só conhecendo bem a Palavra é que podemos seguir verdadeiramente a Jesus, que foi o maior defensor das mulheres que a história já conheceu. O que importa é o que Ele disse, o resto é conversa pra dominar.

7 Comentários

  1. elen bethleen de souza carvalho disse:

    Provérbios 31:     14 Como o navio mercante, ela traz de longe o seu pão.     15 Levanta-se, mesmo à noite, para dar de comer aos da casa, e distribuir a tarefa das servas.     16 Examina uma propriedade e adquire-a; planta uma vinha com o fruto de suas mãos.
    https://bibliajfa.com.br/app/acf/20O/31/14
    Olha o papel da mulher empreendedora!🌷

  2. Não falta nada, Bruna! Deus nos fez inteiras e perfeitas, com inteligência e discernimento para conduzirmos nossas vidas. Quando encontramos um companheiro para dividir a vida, é algo que vem para somar, não para nos diminuir ou nos deixar incompletas e dependentes. Abçs!

  3. Bruna Otto disse:

    Eu tenho sonhos para a minha carreira. Amo estar em casa, mas acho que sirvo ao Senhor no meu trabalho também. Desde que me conheço por gente queria trabalhar, comprar minhas coisas, aprender fora de casa. Hoje em dia sou solteira e faço isso com muito orgulho. Essas vontades que tenho não considero erradas. Acho até que foram colocadas por Deus, já que nunca tive exemplos em casa de mulheres que trabalhavam fora. Um rapaz da igreja uma vez me disse que uma família é o corpo de Cristo, e que a mulher seria o coração, enquanto que o homem seria a cabeça. Ele disse que uma vez que a mulher quem toma as decisões dentro de casa, esse corpo está doente. Não concordo. Moro sozinha, trabalho em dois lugares para me sustentar, tomo decisões sozinha pois não tenho com quem contar — sou eu o corpo inteiro de mim mesma. Claro, com a ajuda de Deus, que me direciona e me abençoa. Que parte do corpo de Cristo me falta?!

  4. Margarida disse:

    “É importante estudar e conhecer a Bíblia, pois só assim teremos condições de identificar FALSAS doutrinas a nosso respeito e de combater aqueles que usam o nome de Deus para MANIPULAR nossas vidas. Só CONHECENDO bem a PALAVRA é que podemos seguir verdadeiramente a Jesus, que foi o MAIOR DEFENSOR das mulheres que a história já conheceu. O que importa é o que Ele disse, o resto é conversa pra DOMINAR.”

    Quis repetir seu comentário Isabela para destacá-lo e para frisar que concordo com a sua colocação e que esse tipo de conduta manipuladora era atitude cultural dos homens daquela região, atitude dos Saduceus e Fariseus mas NÃO era de Jesus, que assustou seus discípulos quando em Samaria falava com uma mulher de igual pra igual (sendo Jesus o filho de Deus) e para mostrar que a salvação é para humanidade e que Deus ama tanto o homem quanto a mulher e por isso Ele explicou que veio para fazer cumprir a lei, e não retirá-la. Isso porque a Lei de Deus não se assemelha à Lei dos homens. E isso muitos judeus não entenderam…

  5. Maria Candida Alves disse:

    Parabéns pelo seu artigo. Estava pesquisando sobre o assunto e só encontrava quem condena a mulher que trabalha fora, inclusive todos eles dizendo que necessidade financeira é uma desculpa. Nenhum desses pastores e pastoras considera a mulher viúva ou separada, que cria seus filhos sozinha e portanto não tem opção: tem que ir à luta, trabalhar em dupla jornada. E olha como é revelador o fato de aqui só haver 2 comentários. Deus continue te abençoando cada dia mais.

  6. Tarciane disse:

    Muito bom! Esse e os demais textos ratificam a necessidade de se pensar mais na liberdade da mulher. Não nos cabe mais a imposição de papéis pre definidos pela sociedade como “mulher tem que cozinhar bem” , “tem que fazer as coisas dentro de casa”, “tem que ser do lar”, etc.. A mulher, assim como o homem é livre para fazer suas escolhas!

  7. Dinalva Fernandes disse:

    Parabéns pelas colocações, visto que em algumas situações, a mulher pode sentir a necessidade de deixar o trabalho fora da sua residência por motivos diversos e optar por trabalhos alternativos, onde possa conciliar com os trabalhos domésticos e ou uma atenção maior para os filhos e, até mesmo atribuir esta decisão a um chamado divino, algo que acredito ser muito pessoal, que não deve, jamais, ser generalisado.
    Nosso Deus trabalha de forma individualizada, de maneira que, as circunstâncias e a intimidade que cada uma de nós desenvolvemos com Ele vai nos dizer se, realmente, é necessário tomar esta decisão e, por quanto tempo.
    Não é uma decisão fácil de ser tomada, muitas vezes o Senhor nos coloca em situações que não temos alternativas, quando nos deparamos com o texto de I Timóteo 5:8 e concluimos que, naquele momento, faz necessário este sacrifício, se não há outra escolha, certamente, Deus nos dará paz e todo o suprimento para atravessarmos esta fase da nossa caminhada, sem nos sentirmos inferiores, nem alienadas.
    Atualmente, estou vivenciando esta realidade, embora não tenha filhos, nem marido, entendi de Deus que o mercado de trabalho, neste momento, seria uma atitude egoísta da minha parte, em virtude das circunstâncias, uma vez que moro com uma mãe idosa que precisa de atenção e acompanhamento em diversas áreas, e, uma irmã (que tem limitações) que está com 2 bebês (gêmeas). Creio que o Pai está querendo trabalhar algo no meu caráter, tipo: renúncia, desapego, viver por fé, descanso, confiança, amor, empatia, generosidade, dependência dEle, humildade, libertação da anciedade, enfim, obediência.
    O surpreendente é que estou em paz, com todas as minhas necessidades supridas, porém atenta, sem perder de vista o discernimento da possibilidade de uma segunda ordem, ou seja as circunstâncias podem voltar a ser favoráveis ao meu retorno ao mercado de trabalho.

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